Moldânia: a nação cuja história os historiadores preferem esquecer

Essa é a história de um orgulhoso e soberano país onde o inverno é de um frio horrível e o verão é de um calor horrendo, uma terra encrustada entre os piores vizinhos imagináveis, e nascida, como nação, do odor pútrido da Peste Negra.

Não há registros confiáveis sobre a pré-história moldaniana – mesmo que, levando-se em conta o fato de que a História inicia-se com o domínio do registro escrito, ela tenha iniciado para os moldanianos tardiamente, por volta do século VI. O historiador romano Teóricus, o Desocupado, esteve na região e descreveu, por volta do século II, a presença de humanos abrutalhados, cuja descrição física é mais próxima do Homem de Neandertal do que do Homo Sapiens – e há pesquisadores que acreditam que a Moldania tenha sido o último reduto dos neandertais, com algo grau de miscigenação entre estes e os Sapiens, tornando o DNA moldaniano muito próximo do de nossos parentes hominídeos.

Por volta do século I da Era Cristã, surgiram as primeiras tribos organizadas em volta de uma estranha construção, meio caverna e meio palácio, de origem até hoje desconhecida, chamada de Castelo da Caveira Cinza (fonte: “The Gray Skull Mistery”, página 171). Estas tribos tinham chefes, e foram desenvolvendo uma cultura de pesca e coleta nos meses quentes, e de caça e matança nos frios. Os moldanianos, nesta fase, legaram ao mundo desenvolvimentos notáveis, como a caça utilizando trenós, o jogo de “queimada”, e um mecanismo de exercícios coletivos para resistir ao frio, conhecido como “suruba”.

 

Unicornismo, a Religião da Moldania Pré-Cristã

Desde tempos anscestrais, os Moldanios cultuavam um ser mítico, cujos retratos podiam ser encontrados em cavernas e paredes de casas em sítios arqueológicos até os anos 80 do século XX. Era o Unicórnio Rosa Voador Invisível, uma criatura que voava pelos ares levando o bem e o mal conforme seus próprios desejos e caprichos. Todos os moldanianos acreditavam nesta divindade, uma vez que era impossível provar sua inexistência. A oração principal do Unicornismo dizia assim:

“Se dizem que não existe porque não se pode vê-lo,
creio que existe porque, afinal, é invisível;
Se dizem que nunca ninguém ouviu seu trotar,
lembro que é voador;
E por isso creio no Unicórnio;
Amém.”

 

PRINCIPADO DE MOLDANUS (879 – 1221)

Existem poucos registros históricos do início do Estado moldaniano. Sabe-se que em 879, o guerreiro Moldaks, o Fodão, venceu os 87 líderes tribais do entorno do Castelo de Grayskull, tomando o castelo e rebatizando-o com seu próprio nome. Para coroar sua vitória, obrigou seus 87 inimigos derrotados a entregarem, cada um, sua filha mais bonita em casamento ao novo príncipe de Moldanus. E para marcar tanto o casamento com as moças como a submissão de seus pais, fez questão de dar-se uma lua-de-mel de 87 noites, passando cada uma delas com uma das meninas. Ao final, já enquanto passava as noites com as últimas da fila, sentiu saudade das primeiras e assim, repetiu o ciclo por cinco vezes. No processo, engravidou todas as esposas, fato que geraria depois alguns desdobramentos.

 

A formação do Grande Conselho

Ao final das 435 noites de luxúria, Moldaks não aguentou, e morreu de exaustão. As 87 rainhas então montaram uma espécie de assembléia para governar o novo Principado. Normalmente uma reunião consistia em uma “panela” de mulheres trazendo alguma ideia e o resto dando palpites até que se chegasse a uma solução de consenso. Em diversas ocasiões, ocorreram brigas, mas como eram brigas entre mulheres de alta classe, resumiam-se a unhadas, puxões de cabelo e tapas, sem ferimentos graves.

Após alguns anos, quando os filhos gerados por estas mulheres foram chegando à maioridade, juntaram-se ao Conselho, tornando o órgão ainda mais caótico mas, ainda assim, funcional. Nenhum dos jovens ousava xingar o outro ou iniciar uma briga, em respeito às senhoras presentes no recinto, e por isso, discussões civilizadas eram possíveis.

 

O Primeiro Príncipe e o Conselho de Palpites

Por volta do ano 900, em mais uma noite de reunião do Grande Conselho, algo inusitado ocorreu: naquele dia, os atores da praça central da capital iriam apresentar o último capítulo da peça seriada “Amor à Vida”, e nenhuma mulher do principado queria perder. Assim, o Grande Conselho reuniu-se apenas com os garotos, que aproveitaram para discutir aos palavrões, jogar coisas uns nos outros, beber e arrotar. Lá pelas tantas, Tchuky, o Maluco, xingou a mãe de Maluk, o Tchuco. Os dois saíram no tapa e marcaram um duelo para o dia seguinte.

Sabendo do duelo, Sylvius, o Homem do Baú, um grande promotor de eventos, resolveu lucrar com a desavença e adiou a luta para outra data, para vender ingressos. Isso deu combustível às discussões dentro do Conselho, e o convívio tornou-se impossível. Logo, partiu-se para a solução radicail: organizar um torneio em que apenas um dos herdeiros sairia vencedor – e vivo – tornando-se o único governante de Moldanus.

Sylvius, sentindo o cheiro do lucro no ar, organizou tudo. Mandou fazer até uma armadura de ouro para o vencedor do combate, e assim, por chaves eliminatórias, prosseguiram as lutas. Maluk, sempre bêbado, acabou derrotado e morto logo nas primeiras fases. Tchuky foi até as semifinais. Mas o grande vencedor foi Brutus, o Bronco, que assumiu todo o poder sobre Moldanus, tornando-se o primeiro Príncipe de fato, governante pleno do Principado. O Grande Conselho, agora formado apenas pelas megeras reclamonas, foi reduzido a um papel consultivo, e renomeado Conselho de Palpites. Esta estrutura política permaneceria mais ou menos intacta até o século XIII.

 

A chegada do Cristianismo

No século X, os primeiros missionários cristãos chegaram às terras moldanianas, tentando demover os habitantes de seu culto pagão unicórnico, mas sem sucesso. Afinal, o cristianismo pregava um monte de regrar chatas pra caramba, que acabariam com a vida de bebedeiras, orgias e libertinagem a que os Moldanios estavam acostumados há milênios. Foi então que Satirus, o Pregador, levou à Moldania a versão tipicamente católica do cristianismo:

“Vos curveis ao senhor, e a ele rendei preces! Podereis fazer o que quiserdes no dia a dia, de segunda a sábado, desde que na frente da comunidade, cuidem de fingir que são sérios. E nos domingos, devereis ir ao padre confessar tudo o que fizeram na semana, para obter-lhe o perdão, fiquem muito arrependidos e com muita vergonha, rezem e recomecem toda a esbórnia no dia seguinte.”

Esta versão do cristianismo deu certo, e a maior parte dos Moldanios converteu-se até meados do século seguinte.

 

A Peste Negra

A Peste surgiu na Moldania, depois espalhou-se para o Leste, Sul, e finalmente para toda a Europa. Seu início e sua passagem pela paisagem moldaniana foi especialmente traumática. As pessoas doentes caíam pelas ruas e, como não havia polícia organizada, outras pessoas roubavam-lhe os pertences, levando junto a infecção. Nos precários hospitais, os médicos – normalmente tarados que escolhiam a profissão por ser a única na qual alguém podia mexer com cadáveres e com mulheres adormecidas por substâncias soníferas – atracavam-se com moribundas e tornavam-se doentes também. O costume de jogar os corpos no Rio Moldano também ajudou a espalhar a doença ainda mais, pois era nele que as pessoas tomavam seu banho anual.

No fim, a população da Moldania resumiu-se a 30% do que era antes da passagem da praga. Não haviam sobreviventes na capital. No Ducado de Bostex, Tabaknik, o Sábio, reuniu seus camponeses e ordenou que ninguém entrasse nem saísse da região. Com isso, ao fim da Peste, os Bostexos compunham a região com mais gente viva em todo o país, e puderam tomar o Castelo Moldax. Depois de remover os cadáveres, reiniciaram a organização do Principado de Moldanus. Tabaknik renunciou ao poder o entregou ao filho, Tabakan, mas viveu até a avançada idade de 52 anos (na época, um fenômeno), estando vivo para ver seu rebento iniciar a próxima fase da vida moldaniana.

 

REINO DA MOLDANIA

DINASTIA TABAKUDA

Tabakan I, o Virtuoso (1221 – 1255)

Iniciou seu governo como Príncipe de Moldanus e terminou como rei da Moldania. Herdou o trono sem grande trabalho, depois de uma juventude de excessos e de luxúria junto a prostitutas e ovelhas.

De saco cheio de brigar com seus 43 príncipes vizinhos, que reinavam sobre territórios ridículos mas ainda assim achavam-se o máximo, Tabakan enviou suas 12 belas filhas a uma longa viagem à cidade italiana de Felatio, onde elas aprenderam muitas coisas.

Quando as 12 princesas retornaram, espalharam-se pelas redondezas e, por serem dotadas de grandes habilidades e muito belas, convenceram todos os senhores a tornarem-se vassalos de seu pai. Todos, menos sete deles, que não renderam-se aos encantos das filhas de Tabakan.
O governante, então, enviou seu filho Sparkus, o Bem Dotado, que convenceu os reticentes. E assim Tabakan unificou todos os principados, fundando o Reino da Moldania, coroado como primeiro rei do novo país.

Inventou um Hino Nacional ridículo, que falava de flores, campos, pátria amada e salve salve, berços esplêndidos, e mais um monte de coisas com as quais os camponeses, trabalhando feito umas mulas e assolados pela peste, pelo frio gélido do inverno e pelo calor escaldante do verão, não se identificavam nem um pouco, e chegaram a achas que o soberano havia inventado a música pensando em alguma ilha caribenha, ao invés da Moldania.

Também inventou uma das bandeiras mais mal desenhadas de que se tem notícia.

Em seu governo, lançou uma das leis mais polêmicas até hoje: na Moldania, havia um costume milenar pelo qual, quando um casal de plebeus ia se casar, qualquer nobre poderia “inaugurar” noiva. Mas isso criava um grande problema, porque muitas vezes surgia uma gravidez, a paternidade ficava duvidosa, e o assunto ia parar na praça central em frente ao palácio, com os possíveis pais discutindo aos gritos, tendo como mediadores os Ratinhos, sacerdotes bigodudos, conhecidos pelo sensacionalismo.

Para acabar com essa palhaçada, Tabakan proibiu terminantemente o desvirginamento da noiva alheia, não importando o grau de nobreza do requerente. E ainda deixou as opções nas mãos das garotas: elas poderiam cumprir suas obrigações oferecendo uma vez a bundinha ou dois boquetes.

Fora isso, seu reinado foi marcado pela unificação do sistema tributário (escorchante), da moeda única (o Merréu), e do sistema de estradas, todas com o mesmo tipo de buraco. Nas estradas, foi ainda pioneiro na contratação de cidadãos que não eram nem soldados, nem camponeses, mas simples vigias que cobravam multas de quem acelerasse demais a carroça ou saísse a galope. Como usavam chapéu feito com penas, ganharam o apelido de “pardais”, e logo tornaram-se uma máfia, mas nunca eram invstigados porque compunham uma das principais fontes de receita do Erário Real.

 

Tabakan II, o Minúsculo (1255 – 1274)

Filho primogênito de Tabakan I, tinha fisionomia mediana e era perfeitamente normal em todas as suas medidas anatômicas mas, como era comparado a seu irmão mais novo Sparkus, recebeu a alcunha de “Minúsculo”.

Seu reinado foi marcado pela consolidação das fronteiras do novo reino e pela guerra contra os Kaganos, tribo conhecida por sua grande coragem. Anexou depois as terras geladas em torno das Montanhas do Norte, com grande facilidade já que, como o lugar é frio de lascar, ninguém vive lá e não houve resistência.

Resistiu ao ataque da Horda de Ouro mongol, fato considerado milagroso. Mas, na verdade, foi uma mistura de sorte com acerto estratégico. Tabakan II empregou batalhões de palhaços, comediantes e outros debochados, montados em cavalos, que chegavam perto dos acampamentos mongóis e gritavam coisas como “dãããã”, fingiam não conseguir bater palmas, e faziam outros trocadilhos com o significado da palavra “mongol”, enfurecendo as tropas do kanato, e fugindo logo depois. Com isso, atraíram os guerreiros mongóis cada vez mais para o norte, até encurralá-los na Grande e Horrível Geleira, onde os inimigos e seus cavalos começaram a morrer de frio, fome, raiva e ódio.

Depois, fez uma aliança com os russos, que tinham um Estado ainda incipiente em Kiev, com a intenção de marchar ao Sudoeste e dominar os povos da Europa Oriental até os Balcãs. Chegou a partir à frente de um dos maiores exércitos que já foram vistos na época. No entanto, era descuidado demais – tentou cruzar o Rio Dniester a nado, mas esqueceu de tirar a armadura e foi engolido pelas águas. Seu exército se dispersou, e alguns soldados viraram monges, de tanto desânimo.

Ao morrer, deixou três filhos homens, todos jovens demais para assumir o trono.

 

Sparkus I, o Bem Dotado (1274 – 1283)

Assumiu o trono no lugar do irmão morto mais ou menos em combate, já que seus sobrinhos eram jovens demais. Passou o reinado inteiro discutindo com os poderosos vizinhos a questão que eles não cansavam de repisar: de quem era a culpa pelo fracasso da campanha de conquista da Europa.

Sparkus ficou de saco cheio e isolou-se cada vez mais do mundo. Construiu a segunda muralha do palácio real, a terceira, a quarta e a quinta. Depois, iniciou a construção de uma grande muralha em torno do país, para não ter mais que receber estrangeiros irritantes em seus domínios. Mas, como não contava com operários especializados em número suficiente para esta obra gigantesca, resolveu licitá-la. O contrato até foi assinado, mas a obra parou diversas vezes, por pequenos problemas burocráticos, até ser completamente abandonada quando a empreiteira terceirizada faliu misteriosamente, deixando os operários na pior e o dono, estranhamente, rico.

Sparkus contraiu uma gripe comum e, sabedor das limitações da medicina da época, reuniu seus assessores para ditar seu testamento, falecendo poucos dias depois.

 

Erasmus, o Tremendão (1283 – 1285)

O filho de Sparkus nasceu com um raríssimo caso de Mal de Parkinson congênito, e tremia sem parar. Morreu cedo e não deixou descendência.

 

Robertus, o Rei (1285 – 1286)

Irmão mais novo de Erasmus, não tinha interesse algum em reinar. Exerceu o poder por alguns meses, apenas até seu irmão mais jovem ter idade para assumir. Então, renunciou e foi seguir seu sonho de ser bardo e cantar.

 

Eduardus, o Bom (1286 – 1289)

Famoso por percorrer o reino em sua carruagem vermelha, não usava espelho para se pentear. Adorava a praia e só na areia sabia trabalhar. Moderno, usava cabelo na testa, era o dono das festas. Mas seus excessos o levaram a morrer muito jovem.

 

O PERÍODO DOS REIS PLEBEUS

Rasputinho, o Longe Mouco (1289 – 1298)

Empossado por pressão da Liga das Velhinhas Solteironas pela Moralidade, foi o único governante que tentou implementar o Cristianismo de verdade no país. Por isso, durou quase uma década no governo: enquanto ele fazia sua pregação inútil e implicava com detalhes mínimos da vida do país, seu braço-direito e sucessor exercia, de fato, o poder.

 

Ulysses, o Democrático (1298 – 1310)

Ao invés de governar de forma monocrática, consultando o Conselho de Palpites apenas para refrescar as ideias, Ulysses transformou esta antiga instituição em órgão com poder de vetar suas decisões. Mas, como o Conselho era formado apenas pela elite, também montou um Conselho dos Plebeus, tornando a Moldania o primeiro regime semi-democrático com Legislativo bicameral do mundo. Também escreveu um código eleitoral, usado para escolher seus sucessores.

 

Ferdinand, o Vendedor (1310 – 1327)

Assumiu o governo prometendo estabilidade e prosperidade. Mas, acossado pelas contas do reino, começou a reduzir o tamanho do Exército e a vender o armamento, o que provocou grande crise com a classe guerreira. Também vendeu os estábulos reais, demoliu as muralhas construídas por Sparkus e vendeu as pedras, e iniciou as negociações para vender metade do país aos russos. Felizmente, morreu antes de completar a transação.

 

Getulius, o Pai dos Plebeus (1327 – 1354)

Eleito depois de denunciar a privataria do antecessor, fez um governo de discurso pró-plebeu, enquanto tomava medidas que agradavam à aristocracia. Quando o povo chegava a ver isso, tomava medidas populares, e chegou a criar direitos para os servos e camponeses. Foi apelidado de “pai dos pobres”. Acossado pela alta aristocracia, que via com maus olhos seu “plebeismo” barato, acabou suicidando-se.

 

Kubischek, o Desenvolvimentista (1354 – 1361)

Assumiu o reino em meio à turbulência provocada pela morte de seu antecessor. Para apaziguar os pobres, iniciou um extenso programa de obras faraônicas nas quais empregou todos os artífices, aprendizes e desocupados do país. E para apaziguar as elites, colocou a coordenação destas obras nas mãos dos nobres, que aproveitaram para se locupletar. Com isso, alcançou a paz nacional, e fez o reino avançar cem anos em sete. Para financiar essa pujança toda, cortou todos os gastos com os guerreiros, criando um grande problema com a classe dos cavaleiros. Mesmo assim, fez um grande governo. Infelizmente, ao viajar para vistorias uma de suas obras, a carruagem capotou e ele não sobreviveu, tendo um reinado curto.

 

Jangolars, o Deposto (1361 – 1364)

Era o super-ministro do governo do rei anterior, e foi eleito por ampla margem. Pegou o reino muito endividado, e por isso, diminuiu o fluxo de distribuição de benesses, irritando a aristocracia. Também iniciou um programa de diminuição das desiguadades. Quando revogou o direito dos cavaleiros, de “inaugurarem” as noivas virgens na noite anterior ao casamento (uma reforma legislativa que havia iniciado ainda nos tempos de Tabakan I), e anunciou um programa de distribuição de terras aos camponeses, irritou ao mesmo tempo cavaleiros e aristocratas. No dia seguinte, o pátio do palácio amanheceu tomado pelos homens de armadura. Jangolars partiu para o exílio.

 

O PERÍODO DOS REIS CAVALEIROS

Lacerks, o Falastrão (1364)

Aristocrata que pregava pela insurreição, em textos bombásticos que eram lidos com avidez pelos dezessete cidadãos alfabetizados da Moldania na época. Assumiu o governo, achando que os cavaleiros o deixariam no trono. Durou poucos dias lá e logo foi escanteado.

 

Zangief, o Forte (1364 – 1379)

O mais bravo, sanguinolento e invencível dos cavaleiros – um gigante cuja armadura exigiu o dobro da quantidade de ferro das armaduras normais – assumiu o governo, pra valer, quando confirmou-se a fuga de Jangolars para fora da Moldania. Seu governo teve como mote o trinômio “Vodka, Briga e Sexo”. Morreu esmagado pelo peso de sua própria macheza que, de tão intensa, ganhou forma sólida.

 

Os Três Patetas (1379 – 1412)

Com a morte de Zangief, assumiu um triunvirato formado por seus três mais leais generais-de-campo. Foi um governo longo e absolutamente inefetivo, pois os três broncos tentavam discutir toda e qualquer ação governamental. E toda e qualquer discussão entre eles terminava em uma briga que destruía tudo na sala, seguida de uma reconciliação e uma bebedeira entre amigos.

Como os governantes não resolviam nada, não ordenavam nada, e não mandavam em nada, o povo foi se acostumando a viver sem governo. Com a morte gradual dos membros do triunvirato, o país foi ficando sem um comando oficial e os camponeses começaram a montar comunas autônomas, interligadas por um conselho inter-comunal com um representante de cada uma das comunidades.

 

PERÍODO DAS COMUNAS AUTÔNOMAS

O Governo Camponês (1412 – 1479)

Neste período, ficou acertado que a aristocracia perderia seus direitos e que todos seriam iguais. Mas, logo em seguida, os camponeses mais ativos e dedicados à estrutura de administração do sistema começaram a se achar mais iguais que os outros. Em seguida, o regime de liberdade total provou ser frágil, e foi preciso construir campos de trabalhos forçados para os inimigos do regime – e, por extensão, inimigos do Povo. A tal democracia inspitada no moderlo grego provou ser burocrática demais, e logo instituiu-se um regime representativo. Mas isso também não desburocratizou nada, e logo mudaram para um regime com representantes que não eram eleitos pelos representados, e sim, nomeados pelo chefe do conselho inter-comunal. Como os representantes é que elegiam o presidente, houveram muitas e muitas reeleições das mesmas figurinhas até morrerem de velhos.

A aristocracia, horrorizada com a perda de seus privilégios, tramou junto às nações estrangeiras planos para retomar o poder. Tanto fez, que conseguiu provocar uma incursão comandada pelo famoso e cruel duque Lugosi, da Transilvânia. Os camponeses pararam de fazer politicagem e uniram-se aos nobres para a escolha de alguém capaz de deter os inimigos. O homem colocado à frente da nação foi um descendente do grande Tabakan.

 

SEGUNDA DINASTIA TABAKUDA

Zangief II, o Absurdamente Forte (1479 – 1481)

Venceu os romenos, húngaros, visigodos, russos, valáquios, turcos e sérvios que lutavam ao lado do duque da Transilvânia. Em um episódio legendário da história moldaniana, os inimigos iniciaram um cerco ao castelo na capital do país, e Zangief, irritado deu um soco na parede, derrubando as muralhas em cima dos inimigos. Os que sobreviveram, fugiram tão assustados, que deixaram um rastro de fezes, urina e vômito (alguns passaram mal de tanto pavor). Zangief reinou por pouco tempo porque, um dia, o nível de testosterona em suas veias chegaram ao ponto de não deixar espaço para o sangue e ele sofreu um enfarto explosivo.

 

Gadu, o Astrólogo (1481 – 1519)

Seu feito mais importante foi não dar ouvidos a um navegador italiano chamado Cristóvão Colombo, que foi até sua presença pedir financiamento para comprar uns navios e tentar descobrir a América. A negativa deveu-se a um fato inusitado.

Em sua juventude, Gadu encomendou uma estátua sua, mas o escultor, um pré-pré-pré-cubista, retratou o monarca na forma de um triângulo com um olho. De início, o monarca guardou essa estátua num porão.

Mas, em seus estudos astrológicos, depois de muitos cálculos, concluiu que o Planeta Terra teria a forma de uma pirâmide. E que ele, Gadu, era o deus supremo. A estátua pré-cubista fazia sentido: o mundo triangular, com o olho de Gadu sobre tudo.

Ele chegou a desenhar um mapa-mundi retratando o planeta neste formato, e o desenho ficou tão bom, que atualmente pode ser visto nas notas de dólar. É que, entre os fundadores dos EUA, estavam membros de um clube fundado por Gadu, e que espalhou filiais pelo mundo todo, existentes até hoje.

Além disso, foi um grande astrólogo que conhecia tudo sobre signos, astros, e criou o primeiro periódico impresso da Moldania, inicialmente usado apenas para publicar suas previsões semanais de Horóscopo. Seus ensinamentos foram compilados pelo grande escritor e cronista da época, Olavus, o Cavalo.

 

Bostov II, o Petrificado (1519 – 1541)

Em seu reinado, as notícias das descobertas feitas por Portugal e Espanha chegaram à Moldania, e Bostov partiu em uma expedição com uma grande esquadra, para conquistar para si porções do Novo Mundo. O plano de seguir a Leste e tomar o que hoje em dia é o Canadá deu errado, quando uma calmaria seguida de um temporal desviou os navios para o Sul, fazendo-os contornar a Terra do Fogo. Bostov II acabou descobrindo uma ilha no Oceano Pacífico, subjugou os nativos, e fez questão de executar pessoalmente o sacerdote da tribo, um pajé com fama de poderoso e mágico.

O velho feiticeiro, à beira da morte, lançou uma mandinga sobre Bostov II e seus soldados: eles haviam conquistado a ilha, então, ficariam para sempre presos nela, com suas almas amaldiçoadas aprisionadas dentro de grandes estátuas de pedra. Muito tempo depois, o local seria redescoberto e batizado como “Ilha de Páscoa”. Era a ironia final: Bostov II sempre odiara a Páscoa, porque o chocolate dava-lhe espinhas.

 

Bostov III, o Americano (1541 – 1564)

Enquanto seu marido massacrava os nativos da Ilha de Páscoa, a rainha Elke Maravilova havia partido com um dos navios da esquadra para tentar atracar mais ao Norte, longe dos perigos da guerra. Ela não sabia que, ao partir, estava já grávida. Seu filho nasceu numa terra estranha, na qual os aborígenes detestavam a chegada de imigrantes vindos das tribos mais ao sul, mas não viam nada de ruim na chegada de povos brancos vindos da Europa. Ao saberem do triste destino de Bostov II, o agora rei recém-nascido Bostov III e sua mãe viajaram para a Moldania, com uma tripulação formada em grande parte pelos indígenas do novo continente, que depois foram admitidos na corte moldaniana. Como consequência, Bostov III adquiriu muitos de seus hábitos.

Elke exerceu a regência até seu filho completar sete anos de idade, sendo então considerado homem e apto a governar. O novo rei, com seus hábitos estrangeiros, chocava a todos: gostava de mulheres de peitões avantajados e sem bunda, comia carne enfiada no meio de duas fatias de pão, e parecia viciado em uma água preta com açúcar. Também tinha um vício incurável de fazer guerras em países incrivelmente distantes, tendo enfrentado o Egito, a Rodésia e ajudado os espanhóis contra os Astecas.

 

Perverich I, o Analógico (1564 – 1621)

Dono do maior reinado da história da Moldania, Perverich viveu até avançada idade, terminando seu governo já quase cego, surdo, sem dentes e incapaz de caminhar sem ajuda de uma bengala.

Recebeu a alcunha de “o analógico” porque considerava-se um cientista, um estudioso, e tinha uma obsessão doentia pelo ânus, sua anatomia e, especialmente, os limites de sua capacidade. Sua curiosidade sobre o assunto iniciou-se no final da infância, quando, sem seus pais saberem, solicitava às serviçais que o vigiavam, que exibissem suas bundas e o deixassem enfiar os dedos ou pequenos objetos. A situação poderia ter rendido problemas para o menino, mas o fato é que aquelas senhoras nunca “abriram o bico”, e com o tempo passaram a achar aquilo normal – Perverich tinha um comportamento doce e mãos suaves. Uma ou duas vezes, houveram sustos, como por exemplo, no dia em que o jovem príncipe foi à sala de jogos do palácio, roubou uma bolinha de madeira usada em uma versão primitiva do ping-pong, e a “perdeu” dentro de uma das cuidadoras. Felizmente, naquela semana seus pais e os membros da corte não estavam com espírito esportivo, e houve tempo para a babá eliminar a bolinha, lavá-la e recolocá-la no lugar.

Com o tempo, seus experimentos ganharam variedade. Passou a inserir não só objetos, mas também líquidos e unguentos. Descobriu ser possível embebedar uma pessoa com um enema de krapp. Mais adiante, passou a sentir prazer ao enfiar coisas cada vez maiores nas encarregadas de sua educação. Depois de machucá-las e de fazer algumas delas sangrarem, descobriu que deveria ir aumentando o tamanho dos objetos gradativamente.

Ao assumir, ainda jovem, o trono, não viu mais razões para esconder sua obsessão – afinal, ele detinha o poder absoluto e não devia explicações a ninguém. Simplesmente, enquanto andava pelo palácio, se sentia vontade, puxava algum membro da corte para um canto e atochava nele ou nela uma vela, uma pena, uma bolinha, uma fruta ou qualquer outro objeto pequeno que estivesse à mão.

Dotado de uma prodigiosa memória, sabia exatamente em que “estágio de alargamento” estava cada um de seus ministros, serviçais, damas de companhia, copeiras, faxineiras e outros puxa-sacos. Assim, ia introduzindo coisas cada vez maiores em cada um deles, sem “pular estágios” em nenhum, fato que tornou suas capacidades de organização notáveis em todo o mundo conhecido.

A obsessão de Perverich, inicialmente, incomodava muito a todos. Mas, com o tempo, foram se acostumando e modificando seus hábitos diários. Por exemplo, nesta época, Herbalafa, a bruxa preparadora de poções, faturou muito vendendo aos nobres uma pasta lubrificante que facilitava o dia a dia deles no palácio. Assim, pela manhã, antes de irem passar o dia perto do rei, os aristocratas desenvolveram o hábito de aplicar um pouco da poção no ânus, o que amenizou muito suas agruras. A coisa tornou-se tão corriqueira que, na segunda metade do reinado, os camponeses e artesãos das proximidades da capital passaram a imitar o “andar engraçado” dos cortesãos mais experientes, achando que fosse um caminhar chique.

Perverich, embora pervertido, era dotado de grande coragem.

—-

Meses depois de sua coroação, o novo rei foi desafiado pelo filho do barão da Bostavia, muito cristão e indignado com as perversões do governante, para um duelo valendo a coroa. Perverich teve grande dificuldade para manter-se em pé contra o poderoso adversário, mas no fim, conseguiu vencê-lo usando um golpe imediatamente apelidado de “égua voadora”. Após vencê-lo, fez com que cravasse a própria espada no chão e sentasse em cima do cabo. O jovem e humilhado barão permaneceu “empalado” por quatro horas, enquanto a multidão ria sem parar. Depois disso, ninguém mais desafiou Perverich, e o barão passaria para a história como Crô da Bostavia, o barão da Bundinha de Veludo.

—-

Em 1589, estourou a Primeira Guerra Civil Moldaniana, um levante dos paganistas Unicornistas contra a influência cristã sobre o reino. Perverich manobrou suas tropas e desceu o cacete nos Unicornistas, depois avançou sobre os pró-cristãos, e no fim, levou seus exércitos até a Bostavia, onde fez questão de dar uma surra no barão só para não perder o treino.

—-

Em 1601, a Moldania foi atacada pelos Poloneses. Depois de derrotá-los e fazer milhares de prisioneiros, Perverich mandou que enfiassem formigas vivas no traseiro dos capturados, que saíram pulando pela estrada, de volta para casa. Pensando tratar-se de mais uma epidemia de dança compulsiva da Idade Média, um bando de músicos seguiu a massa dos pulantes, tocando seus instrumentos. Este episódio deu origem à Polca.

—-

No ano 1604, a Moldania foi atacada pelo Império Otomano. Contra todas as expectativas, os soldados turcos viram-se em dificuldades diante do exército moldaniano, muito menos numeroso. Perverich, cavalgando à frente de suas tropas, conseguiu vencer os inimigos e capturar muitos deles. Seus soldados esperavam a ordem de “cortem-lhes as cabeças”, mas o monarca preferiu mandar os invadores de volta para casa, não sem antes dar a ordem “arrebentem-lhes as pregas”. É famosa uma passagem nos diários do escriba turco Afif, o Liberal, a passagem que fala do retorno dos guerreiros “que na Moldania contraíram estranha enfermidade, ficando incapazes de sentar por quatro semanas.”

—-

Já muito velho e cansado, Perverich foi surpreendido pelo ataque dos Picolos, uma tribo que morava ao norte e se alimentava de neve, gelo e sorvete. Após uma longa marcha, chegaram à Moldania e lançaram-se ao ataque. Apenas 10% de suas tropas sobreviveram à eficiente guarnição moldaniana. Estes, foram amarrados sem roupa e de quatro, e deixados nas praças das cidades para diversão dos homens solteiros dos vilarejos, e lá ficaram por dias. Depois de desamarrados, ficaram mais alguns dias porque haviam gostado da brincadeira. No início, sua opção foi alvo do ataque de moralistas, mas depois, conseguiram garantir seu direito de darem para quem quisessem. Ao voltarem para casa, protagonizaram a primeira Marcha do Orgulho Gay da História.

—-

Ao morrer, Perverich I recebeu um estranho funeral, descrito em seu testamento como último desejo: teve o corpo besuntado de óleo e lançado dentro de uma uma cova circular, estreita e profunda, escavada exatamente no vale entre as duas Colinas Bundivas, assim chamadas por lembrarem o formato de nádegas.

 

Tabakan IV, o Otário (1621 – 1625)

Depois do longo e interminável reinado de seu pai, este rei assumiu o trono sem noção alguma de como gerenciar o país. Era um pateta, e deixou tudo nas mãos de seus assessores. Um deles, Sergei, percebeu que o monarca assinava qualquer papel que parasse em sua frente, sem ler. Elaborou um contrato pelo qual o rei entregar-lhe-ia todos os poderes.

Depois de assinar o documento, Tabakan IV ouviu de seu assessor a melhor notícia que poderia esperar: na China, haviam ouvido falar do grande rei da Moldania e queriam conhecê-lo. Além disso, o imperador chinês queria dar suas vinte e três lindas filhas, umas chinesinhas 100% hentai, em casamento ao rei de tão incrível país. Tabakan IV arrumou as malas e partiu em direção ao Oriente, já com água na boca.

 

A DINASTIA MALLANDROVSK

Sergei Mallandrovsk, o Usurpador (1625 – 1628)

De posse da assinatura de Tabakan, e tendo enviado o monarca para fora do país, Sergei tomou para si o poder, com a conivência da nobreza e dos Palpiteiros do Conselho, todos já cansados das maluquices dos monarcas tabakudos.

Seu governo começou com a execução em massa das principais figuras da família real, que poderiam ameaçar seu domínio. Depois, decretou a execução de todos os detentores de títulos aristocráticos. Reuniu todos os atingidos pelo decreto em um campo, com as mãos amarradas, e mandou que fechassem os olhos. Todos obedeceram, esperando uma morte horrível. Receberam cada um um balde d´água na cara, enquanto o monarca gritava “pegadinha!” e ria sem parar.

Acabou linchado pela turba enfurecida.

 

Salcifufu Mallandrovsk, o Pacificador (1628 – 1654)

O filho mais velho de Sergei não buscou vingança pela morte do pai. Ao invés disso, fez um governo ponderado e industrioso, no qual construiu a famosa Armada Moldaniana, terror dos mares gelados do Norte da Europa.

Esta força marítima formidável foi seu trunfo por anos de reinado, e ele a usou para pressionar vizinhos e rivais, obtendo o controle de várias ilhas e de rotas importantes de comércio.

Acabou traído por sua ignorância sobre Geografia: ele intuiu que, se indo ao norte encontrava cada vez mais frio e gelo, indo ainda mais ao Norte, ultrapassaria o centro gelado do mundo e chegaria ao outro hemisfério quente. Assim, partiu com sua esquadra rumo ao Ártico. E nunca mais foi visto.

 

Ieye Mallandrovsk, o Ferrado (1654 – 1671)

Assumiu o governo interinamente enquanto seu pai viajava rumo a novos domínios no Norte. Durante seu reinado, Tabakan IV retornou de sua longa viagem pelo mundo, e iniciou uma luta para retomar o trono. Na Batalha do Vale Rancho, Ieye venceu Tabakan IV à custa de perder boa parte de suas tropas leais. Foi uma vitória pírrica. Tabakan IV poderia ter avançado e retomado seu palácio, se não tivesse morrido de pneumonia depois de combater no vale úmido, frio e pestilento, com lama até a cintura, ainda mais sendo um velhote.

Aí veio o inverno, e com ele, a dificuldade de combater e marchar pelos campos da Moldania. Com a volta do sol na primavera, Novorich, filho de Tabakan IV, assumiu a liderança das tropas do pai morto e marchou para o palácio.

 

TERCEIRA DINASTIA TABAKUDA

Novorich, o Soberbo (1671 – 1702)

Depois de uma juventude de dificuldade e pobreza, vivendo no meio do mato enquanto seu pai lutava contra os usurpadores Mallandrovsk, Novorich assumiu o trono e logo mandou fazer roupas de alto padrão, reformou o palácio com o que havia de mais moderno, bonito e chique, e gostava de caminhar pelas ruas usando o máximo de ouro que conseguia carregar. Quando recebia dignatários estrangeiros, gostava de falar de seus bens, de seus cavalos, de suas carruagens “último ano”. Os camponeses o achavam um almofadinha. Os demais nobres das redondezas o achavam um deslumbrado.

Para compensar a pobreza do passado, fazia questão de demonstrar riqueza. E para tornar sua riqueza mais evidente, criou um imposto que, na prática, tornava até mesmo os ricos da Moldania, pobres, destacando ainda mais sua prosperidade pessoal. Instituiu um código segundo o qual ninguém poderia ter carruagens mais novas do que as do rei, e nem roupas mais caras ou luxuosas do que as dele.

Um dia, deu um banquete gigantesco, e um duque presente ao evento disse que Novorich era próspero e gordo, mas que na França havia um senhor feudal que comia o dobro e pesava quase isso. Novorich, para não ficar para trás, se empanturrou e ultrapassou tudo o que seus pares já haviam visto em suas vidas. Os relatos deste banquete tornaram-se versos cantados por menestréis em toda a Europa. Novorich era, sem dúvida, o rei mais rico e mais glutão do mundo. Morreu de indigestão, horas depois.

 

Malakov, o Humilde (1702 – 1750)

Quando jovem, o príncipe Malakov era a grande tristeza de sue pai. Gostava de parecer pobre, usava roupas de aldeão, com calças muito maiores do que seu tamanho ideal, os fundilhos quase na altura dos joelhos. Complementava a vestimenta usando um chapéu de camponês, com a aba virada para trás, e reta ao invés de curvada.

Malakov preferia andar nas periferias ao invés de estar na corte, mas como era obrigado a ficar dentro do palácio por causa de suas obrigações. Assim, resolveu levar a periferia ao castelo. Logo, puxa-sacos e serviçais estavam cantando as músicas das aldeias mais excluídas, usando dreadlocks nos cabelos, e até tomando banhos de sol para ficarem com a pele bronzeada e escura como a dos camponeses.

Como resultado, a elite da nobreza organizou uma revolta, chamada de “Cansei”, pois estavam cansados. Malakov ficou três dias sitiado dentro de seu palácio, cercado pelas forças de seus inimigos. Os camponeses, artesãos, mercadores, até mesmo os marginais, salteadores e outros “manos da perifa” se organizaram, salvaram o governo e botaram as elites para correr.
Com um dos reinados mais longos da Moldania, Malakov deixou extenso legado cultural, de cultura popular, fato que tornaria sua imagem muito relembrada no século XX, quando da instauração do socialismo moldaniano.

 

Surduk, o Cego (1750 – 1768)

Na realidade, enxergava bem, mas tropeçava muito enquanto andava, e lia com dificuldade. É que havia nascido manco e burro sendo semi-analfabeto a vida toda.

 

Cegov, o Mudo (1768 – 1786)

Ao contrário de seu pai, era extremamente inteligente. Tão genial, que preferia o silêncio a ter que argumentar com o bando de imbecis que o cercava.

 

Mudonov, o Surdo (1786 – 1801)

Ganhou a fama de não escutar quando, ao ser ordenado para parar de fazer bagunça, não ouvia. Depois, não escutava o que seus professores diziam. Quando começou a arrumar namoradas, nunca ouvia nada do que elas diziam e ficava concordando com a cabeça, fato que lhe rendeu sucesso com o sexo oposto. Mas, na verdade, escutava muito bem e, secretamente, era um músico virtuoso. Fingia não ouvir nada para se dar bem.

 

Perverich II, o Bondoso (1801 – 1829)

Quando jovem, demonstrava um comportamento afeminado, de modo que seu pai achou importante ele ter uma mulher que conseguisse “ensinar-lhe alguma coisa”. Teve, assim, um casamento arranjado com uma duquesa doze anos mais velha do que ele, que era sua prima em segundo grau. Mas ela não produziu filhos e deixou o jovem viúvo muito cedo.

Durante este primeiro casamento, Perverich teve inúmeros casos amorosos com filhas de serviçais, todas muito mais jovens do que ele. Temia-se que estas escapadas produzissem algum filho metade plebeu, o que horrorizava a toda a corte. Tentaram apresentar Perverich II a uma série de noivas, mulheres adultas, bonitas, formosas, mas o rei as rejeitava. Apenas uma delas o agradou, mas logo descobriu-se que ele se sentia mesmo atraído era pela irmã mais nova e ainda pré-adolescente da pretendente.

Até que um dia, foi arranjado um casamento com uma prima em primeiro grau, bem mais jovem do que o viúvo: ela tinha doze anos de idade, e agradou bem mais a Perverich do que sua antecessora “madura”. Da noite de núpcias em diante, o rei atracou-se na moça com gana. Aos 13 anos, a nova rainha deu à luz um herdeiro para o trono.

Perverich II passou para a História como um rei caridoso, que fundou inúmeros orfanatos para crianças pobres e desamparadas, os quais ele gostava de visitar pessoalmente quase todos os dias, especialmente depois que sua esposa chegou aos 20 anos de idade.

 

Mongolov, o Torto (1826 – 1829)

A Dinastia Tabakuda procurou, sempre, casar seus herdeiros do trono dentro da própria família, para evitar a contaminação por sangue inferior e a degeneração de sua raça. Mas isso levou a um colapso em termo de variedade genética. E o resultado final foi Mongolov, que nasceu com diversas deformações e anomalias genéticas. Ele teve também um irmão menor, ainda mais monstruoso.

Sem o menor interesse nos assuntos do reino, Mongolov preferia passar o dia comendo o próprio ranho, coçando a bunda e cheirando a mão depois, e colecionando bolinhas de sujeira encontradas nos corredores do palácio.

Na tentativa desesperada de reverter a degenerescência da família, os assessores arrumaram uma princesa alemã para casar com o monarca. Mas ele preferia brincar de esconde-esconde com ela do que produzir filhos. A rainha não aguentou, acabou fugindo com o filho do padeiro, e Mongolov não deixou herdeiros.

 

Mongolov II, o Quase Nada (1829)

Irmão mais novo do rei morto, chegou a assumir o trono por armação do Conselho de Palpites, cujos membros temiam deixar o país sem governante. Era baixo, manco, cabeçudo, peludo feito um macaco, tinha dentes faltando e um nariz que parecia o bico de um tucano. Ao contrário do irmão, era pansexual: tinha relações com animais, objetos, e só não as tinha com garotas, porque todas corriam dele.

Na primeira semana de governo, mandou uma carta ao rei da Itália, dizendo que, se não recebesse dele uma princesa de presente, invadiria o país – algo difícil, devido à distância.
Para alívio do Conselho, que havia feito uma grande mancada ao coroá-lo, Mongolov II morreu com apenas duas semanas de reinado – em razão de um coice recebido de uma égua, quando tentava possuí-la.

 

DINASTIA MERDEX

Merdex I, o Bastardo (1829 – 1864)

Quando Mongolov e Mongolov II morreram, sem deixar sucessor, veio à tona o fato de que diversos jovens que viviam ociosos pelo palácio, sem ocupação, eram na verdade filhos de Perverich, pai dos monarcas recém falecidos.

Um deles, filho da jovem enfermeira que acompanhava Mongolov para todo lado, foi assumindo cada vez mais poder – ainda mais porque aprendeu a fazer uma assinatura igual à do rei abilolado – e passou a lançar decretos como se fosse o próprio.

Com a morte de Mongolov II, Merdex assumiu como regente até que a questão sucessória se definisse. Os membros do Conselho de Palpites Reais tentaram destituí-lo em uma manobra ardilosa mas Merdex, informado pelo office-boy dos conspiradores, o jovem Dedurov, conseguiu evitar a própria queda.

A ocasião ficou conhecida como A Noite do Churrascão, pois os soldados da Guarda Real trancaram por fora as portas da Sala do Conselho e tacaram fogo no lugar. Merdex assumiu de vez o trono, e Dedurov tornou-se ministro plenipotenciário.

O Conselho de Palpites foi reestruturado, com novos membros escolhidos por um estranho método: os quarenta e sete candidatos ficaram confinados em uma casa semi-transparente, feita de palha, montada em frente ao palácio. Os aldeões assistiam ao dia-a-dia dos confinados e toda semana podiam votar pelo empalamento de um deles. No fim, os vinte candidatos que sobraram dentro da casa foram empossados.

Neste governo, que visou a modernização do país, foram construídas obras importantes como o Aqueduto Seco e a rodovia entre as cidades de Nada e Lugaralgum.

 

Merdex II, o Andrógino (1864 – 1882)

O primeiro rei da dinastia Merdex demorou a gerar filhos. Até que um dia teve uma filha, que morreu logo após nascer. Pouquíssimo tempo depois, veio um menino. Merdex II foi, desde sempre, considerado um rapaz de traços fisionômicos afeminados e comportamento idem.
Apesar disso, Merdex II foi um rei guerreiro, que submeteu diversos inimigos e gostava de lutar pessoalmente junto às tropas, acampando com elas e dormindo na mesma barraca com os soldados.

Também foi em seu reinado que as mulheres da Moldania ganharam alguns direitos, como o de beber até cair, montar a cavalo, escrever, ler, contar piadas sacanas e dizer palavrões.
Este rei casou-se com uma prima, lindinha, loirinha, de olhos azuis e com uma bundinha de parar o trânsito. E tinha com ela um comportamento lascivo, dando longos beijos de língua em frente aos serviçais e até na sacada do palácio. Logo produziram um herdeiro, que no entanto não parecia em nada com o rei ou com a rainha – e muitos comentavam, à boca pequena, que era na verdade uma criança adotiva, filho de algum aldeão.

O fato confirmou-se quando Merdex II morreu: ao tirarem suas vestes reais, desobriram que o monarca era na verdade uma mulher – a filha única de seu antecessor. E que a rainha viúva era, na verdade, um sapatão.

Mas isso foi ocultado do povo, para permitir a coroação do jovem príncipe órfão.

 

Merdex III, o Breve (1882 – 1884)

O jovem e impulsivo Merdex III assumiu o trono em meio à polêmica sobre a identidade de seu pai/mãe, e teve que enfrentar diversas conspirações palacianas. A única coisa importante que fez em seu governo foi pintar o palácio real de azul e decorá-lo com motivos inspirados na imagem de praias tropicais, que ele visitou em suas viagens na infância.

Um dia, viajando pelo sul da Ásia, descobriu um novo esporte, ao ver uns aborígenes andando sobre a água em pranchas de madeira. Decidiu que queria viver de maneira simples e surfar todos os dias, fez as malas, comprou uma passagem de navio para o Havaí e sumiu no mundo.

 

Período da Grande Confusão (1884 – 1897)

Com a renúncia repentina de Merdex III, o governo da Moldania ficou acéfalo. O Conselho de Palpites reuniu-se e estava dividido entre duas alternativas: convocar uma eleição entre os nobres para escolher um novo monarca, ou assumir o governo interinamente, na esperança de que Merdex III voltasse ao perfeito juízo e regressasse ao país.

A reunião para definir o que fazer durou três dias, e acabou em violência. O grupo a favor da regência temporária venceu a briga, e aliás, instituiu-se aí um costume: todas as decisões do governo regencial seriam tiradas na porrada. Conselheiros passaram a treinar, levantar pesos e aprender a usar cadeiras como armas.

Neste governo, a Moldania sofreu um ataque por parte da Rússia. Sem condições de resistir, o Conselho de Palpites assinou a rendição incondicional depois de três dias de luta inútil.
O povo, no entanto, manteve uma guerrilha por todo o período de ocupação. Os russos, por falta de interesse em anexar completamente o país e construir nele uma estrutura de dominação completa, acabaram reeditando a divisão dos velhos principados e montaram estados-satélites, vassalos de Moscou, com elites locais lucrando nesse esquema.

 

DOMINAÇÃO RUSSA

A pequena humilhação (1897 – 1902)

Neste período, a Moldania passou a não ter exército e seus cidadãos eram obrigados a tirar o chapéu e se curvar diante da passagem de qualquer cidadão russo, menos aqueles que fossem abstêmios, ou fedorentos, ou portassem uma pochete. Além disso, pagavam tributo ao falido Império Russo. Irritados com esta situação, organizaram a Revolta dos Pelados, assim chamada porque opor dois motivos: porque a Rússia não tinha grana para manter presídios, e porque os cativos eram obrigados a marchar para casa sem roupa.

Quando a revolta assumiu proporções gigantescas, os russos foram obrigados a enviar milhares de soldados para contê-la, e o regime de ocupação endureceu de vez.

 

A grande humilhação (1902 – 1906)

Irritados com a revolta, os russos impuseram novos termos de submissão aos moldanianos. Todas as moças virgens da Moldania foram cadastradas e enviadas, em levas, para os quartéis dos ocupantes, para serem submetidas a uma noite como brinquedos sexuais. A maioria das jovens moldanianas, no entanto, conseguiram manter suas virgindades usando o exemplo, que era lendário no país, das camponesas do reinado de Perverich I: ofereciam suas bundas para salvar os hímens. Esta época ficou conhecida, jocosamente, como a Grande Epidemia de Hemorróidas, e as primeiras indústrias de vaselina do país nasceram e prosperaram neste período.

 

RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA

Karloff I, o Libertador (1906 – 1912)
EM 1905, a Rússia sofreu uma inesperada derrota na guerra contra o Japão. O gigantesco império foi varrido por revoltas, e como consequência, ficou sem condições de manter suas forças na Moldania.

A guerrilha incessante dos camponeses contra o invasor finalmente alcançou o sucesso, e houve uma rápida disputa pelo poder. Simplovich, camponês que comandava a maior parte da massa popular, chegou a assumir o poder por dois dias, mas os antigos aristocratas, horrorizados pela ideia de serem governados por um plebeu, orquestraram a subida ao poder de uma pequena força da resistência, liderada pelo duque Karloff, nobre empobrecido que vivia escondido na mata, com pena de morte decretada e caçado como um cão pelos 20% do exército russo que ele não havia lembrado de subornar.

Ao assumir, Karloff I dotou o país com uma Constituição, “ambígua, reacionária, simplista, perfeitamente modelada para o perfil obtuso e intelectualmente limitado do nosso povo”, disse o monarca, arrancando aplausos entusiasmados da massa popular.

 

Karloff II, o Chaplin (1912 – 1915 e 1917 – 1934)

Baixinho, magro e usando um bigodinho, lembrava muito o ator Charles Chaplin. Assumiu em 1912, logo sentiu que uma guerra estava para estourar e tentou armar o país. Mas em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, viu seu país ser invadido pelo Império Russo, mais uma vez. Permaneceu sitiado dentro do palácio real enquanto os russos tentavam usar a Moldania como ponto de manobra para atacar os alemães.

A resistência dos camponeses à passagem das tropas russas foi tão grande, que o czar resolveu atacar sem usar o território moldaniano, concentrando todos os esforços na desastrada Batalha de Tannenberg.

Em 1917, com a queda do czarismo e a revolução na Rússia, Karloff II fez um acordo com um tal general Kornilov para que ele puxasse o tapete do governo republicano estabelecido no gigantesco país vizinho. A ofensiva de Kornilov levou o novo governo russo ao colapso, e os bolcheviques ao poder. Iniciou-se a grande Guerra Civil da Rússia, que duraria até a década seguinte. No meio da bagunça, Karloff II aproveitou para libertar a Moldania de seus invasores.

 

Nikolai, o Imbecil (1934 – 1943)

Um príncipe conhecido por ser forte, bonito, e burro pra cacete. Amava muito o pai, mas, sendo um ignorante, acreditava que o visual escolhido pelo “véio” era uma homenagem não ao cineasta britânico, e sim, ao novo presidente da Alemanha, Adolf Hitler. Por isso, sempre nutriu simpatias pelo nazismo, mesmo sem fazer a mínima ideia do que a ideologia nazista pregava.
Baseado nisso, aliou-se ao Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial. Cedeu espaço para Hitler passar com seus soldados em direção à Rússia, vendo nisso uma chance de sacanear os inimigos que, quando criança, vira seu pai combater. Com a derrota alemã em Kursk e depois em Stalingrado, foi sendo cercado cada vez mais pela oposição republicana. Um dia, chegou a sua sala para dar ordens reais, e encontrou Alexander Kakareski sentado à mesa, despachando. Ali, sentiu que tinha feito alguma besteira, mas morreu anos depois, sem “sacar” a mancada que cometera.

 

REPÙBLICA DEMOCRÁTICA DA MOLDANIA

Alexander Kakareski, o Liberal (1943 – 1944)

Apesar de chato, desinteressante e sem seguidores, conseguiu assumir o poder porque os comunistas combatiam os nazistas nas ruas, evitando a dominação alemã total, e a monarquia estava com o filme tão queimado, que caiu de madura. O povo logo gostou dele, porque as donas de casa o achavam bonito e ele sabia muitas piadas cabeludas, que agradavam aos lavradores e operários rústicos e sem cultura. Usava túnicas com frases de efeito, corria na ruas da capital, nadava no fosso em volta do castelo, e prometia “acabar com os marajás com uma só espadada”. Mas seu poder durou só enquanto a Rússia não chegava para dar alguma unidade e organização aos comunistas locais.

 

RSCMPM

(República Supostamente Comunista e Moderadamente Popular da Moldania)

Konstantin Urinov (1944 – 1963)

Amigo do peito de Stalin, fã de Lênin a ponto de ter um pôster dele na parede do quarto.
Herói da resistência anti-nazista durante a guerra, ficou conhecido em Moscou por lutar com grande ferocidade, e ser o sujeito mais cabra-macho da Europa Oriental. Foi preso pelos nazistas e torturado. A primeira gota de sangue que caiu dele, pingou na bota de um oficial da SS, derreteu o couro e queimou o pé do desgranido. Urinov então cuspiu na cara do outro soldado, nocauteando-o. Em seguida, meramente olhou para o último soldado, postado na porta e levantou as sobrancelhas, fazendo com que o alemão se borrasse nas calças e desmaiasse, permitindo que o guerrilheiro fugisse.

Em outra ocasião, matou todo um batalhão das forças auxiliares vindas da Romênia, usando apenas um canivete e um barbante.

À frente ds forças de libertação, conseguiu não apenas acabar com a monarquia, mas também com a democracia, com os nazistas e, tomado por fúria enlouquecida, quase continuou sua matança psicótica contra todos os inimigod do Povo, incluindo dondocas, playboys, burgueses, e até operários que, só porque haviam saqueado alguma loja, sentiam-se no direito de usar roupas de grife.

A chegada do Exército Vermelho botou uma certa ordem no galinheiro, e Urinov montou um corpo jurídico para gerenciar de forma organizada o país. Em seu governo, coletivizou tudo – menos a coleção de carrinhos em miniatua do príncipe herdeiro, que confiscou para si.

Acabou aposentado compulsoriamente por senilidade, quando começou a desenhar foices e martelos nas paredes do palácio presidencial, usando os dedos embebidos em tinta para carimbo.

 

Borrax Kaganovich (1963 – 1971)

Entrou na onda revisionista de Kruschev, e tinha tendências hippies. Tentou emplacar o plantio da maconha nas gélidas estepes moldanianas. Um dia, embarcou numa viagem de LSD e nunca mais voltou. Mesmo assim, permaneceu mais três anos no poder até embarcar para os EUA, onde passou seus últimos dois anos de vida realizando um sonho: atravessar a América de carona, como pregava Jack Kerouack.

 

Dimla Erundinova (1971 – 1974)

Segunda mulher (depois de Merdex II) a assumir a chefia do país, Dimla foi empossada para um “mandato tampão”, pois esperava-se que sua sensibilidade feminina ajudasse a dissipar as disputas internas do PMCM (Partido Muito Comunista da Moldania). Mas Erundinova mostrou-se mais “macho” e durona do que seus colegas esperavam, e para piorar, iniciou uma reforma extensa das estruturas de governo, combatendo os apadrinhamentos e a corrupção nos órgãos públicos.

Em 1972, a nação ficou estupefata com a prisão em massa daquilo que Erundinova chamou de “falsos comunistas”, militantes que secretamente ganhavam propina, levavam uma vida de ricos, mas usavam camisetinha do Che Guevara e insistiam em assinar seus nomes precedidos da palavra “camarada” e seguidos do falso sobrenome “Guarani-Kaiowa”.

Um dia, a governante foi mergulhar em sua piscina presidencial, estava em período menstrual e colocou um absorvente interno (vulgarmente conhecido como “OB”). Que era, na verdade, uma pequena banana de dinamite disfarçada, por obra de seus adversários dentro da nomenklatura. A causa mortis oficial, veiculada pelo jornal do governo, foi “enfarto provocado por susto ao ver uma barata”.

 

Burrolich Cuzak (1974 – 1986)

Educado no estrangeiro – fez faculdade na Albânia – Burrolich fechou e endureceu o regime. Sentia que os aliados russos já não eram tão socialistas assim, também ressentia uma traição do marxismo pelos chineses, e via os iugoslavos como “moles demais”. Ou seja, todos uns vendidos.

Para tornar seu país seguro contra os avanços do CAPETALISMO, iniciou um programa nuclear em 1978, e em 1983 construiu a arma suprema – a maior bomba atômica já feita na história. Era mais poderosa do que os engenheiros calculavam. Ao testá-la, a Moldania afundou nas águas gélidas do Oceano.

A explosão foi tão poderosa que um pequeno país vizinho (a República da Sbornia) foi lançado longe, ficando solto pelos mares, à deriva.

Quando a núvem radioativa ocasionada por esta explosão começou a se espalhar pelos céus da Europa, toda a imprensa capitalista, o PIG, a Globo, Olavo de Carvalho, Raquel Scherazade e o Estadão – claro – inventaram uma história estapafúrdia sobre a usina nuclear de Chernobyl e botaram a culpa na União Soviética e no PT.

Anúncios

A rádio que ninguém escutava

Era uma vez, numa vila, uma rádio comunitária. Ela era comunitária no papel, mas na verdade, o dinheiro para montá-la vinha do bolso de um velho goleiro de futebol de segunda divisão. Nesta vila, portanto, a rádio era dele. E ele a controlava com mão de ferro.

Quando a rádio entrou no ar, foi aquele entusiasmo. Muita gente pegou responsabilidade pelos horários, muitos programas surgiram, muitos talentos revelaram-se.

E a tudo isso, o velho goleiro parecia aplaudir.

Só que tinha um problema: o cara tinha sérios problemas. Num dia, acordou dizendo que era comunista e que iria derrubar o sistema usando a força de sua rádio. No outro, desceu o cacete no pessoal do MST, acampado a poucos quilômetros da rádio. Numa manhã, resolveu só tocar música regionalista e no outro dia, quebrou os CDs destes cantores e meteu um rock pauleira.

Era um sujeito ciclotímico. Não clinicamente desequilibrado, uma vez que não fizera exame e por isso não haviam laudos dando conta do problema. Mas ele era visível.

Xingava políticos em pleno ar, mas quando eles telefonavam para argumentar contra, sua voz ficava doce e ele os elogiava. Às vezes, atacava jornalistas dos jornaizinhos impressos, editados por outros moradores da vila.

À medida que seu comportamento errático o fazia perder o respeito das pessoas, sua rádio ia decaindo em termos de credibilidade. Mas os políticos da cidade onde ficava essa vila, desapercebidos disso, ofereceram um cargo importante ao velho diretor da rádio. Um desastre: o homem ficou ainda mais descontrolado. Demitiram.

Ferido em seu orgulho, o já desequilibrado homem começou a identificar seus verdadeiros inimigos: os aproveitadores que usavam da rádio, montada com seu rico dinheirinho, para fazer fama e deixá-lo para trás.

Começou com um programa matutino que passava música amena e leitura das manchetes dos jornais e revistas mais importantes. Ora, se o apresentador do programa simplesmente botava músicas a rodar, e lia jornais, por quê era tão famoso? Por quê tanta gente telefonava para o programa? Por quê o apresentador era mais requisitado na rua do que ele, o grande “dono” da rádio?

E disse ao apresentador: “Ponha-se daqui para fora”, assumindo ele mesmo a atração matutina a partir de então. Passados alguns dias, os telefonemas no horário diminuíam, o prestígio e a audiência do programa caíam… e o velho guerreiro não entendia. Afinal, o programa tinha música e jornais. E ele havia mantido a fórmula inalterada! Por quê o sucesso se esvaia?

Descontente, percebeu que ainda haviam outros apresentadores ofuscando-lhe o brilho. E começou a roubar os programas deles, um a um, expulsando-os da rádio. Dali a um tempo, estava ao microfone noite e dia. Lia até horóscopo.

E descia o cacete nos órgãos públicos. Na companhia de água, na de luz, na de telefone. No prefeito. Todos estes respondiam-lhe em notas, ou o interrompiam, no ar, com telefonemas. Polêmica! Quebra-pau! Uma maravilha para quem quer audiência.

Só que… eis que com o tempo, até estes telefonemas e notas, antes frenéticos, começaram a escassear.

Na conversa informal com o dono do bar, um alto dirigente de órgão público confessava: “de início, rebatíamos o que o radialista dizia… mas com o tempo, descobri que ninguém escuta o que ele diz, e portanto, parei de me dar ao trabalho”.

E assim seguia a rádio. Cada vez mais irritadiço e bipolar, o velho diretor ia espantando seus funcionários. Foram saindo até os trabalhadores mais técnicos. Logo, o dono estava operando todo o maquinário sozinho.

Essa história aconteceu há vários anos. Dizem que o velho ex-goleiro/radialista/empresário ainda está vivo, e que mudou-se para dentro dos estúdios da sua velha emissora de rádio.

Uma faxineira cuida de sua velha casa. Mensalmente, vai ao estúdio para receber seu salário. E jura ao patrão que escuta seus programas todos os dias. Mas na verdade, não o ouve há vários anos, preferindo a emissora de música sertaneja.

É aí que o cara se corrompe…

Anos 1980. Zezinho é um jovem cheio de idéias, cheio de convicções, com vontade de mudar o mundo. Ele e seus amigos do grêmio estudantil ficaram sabendo da fundação, nas grandes cidades do Brasil, de um partido novo, o Partido dos Operários. Depois de organizar algumas reuniões numa sala que um sindicato emprestou, conseguiram fundar um diretório local. E aí começou a militância.

Inicialmente, os jovens do PO eram vistos pela população local com um misto de comicidade e admiração. Para uns, parecia ridículo aquele bando de guris tentando ficar barbudos (alguns ainda sem barba cerrada), com palavras de ordem fora da realidade. Para outros, a imagem de jovens, sem chance eleitoral alguma, lutando por um mundo melhor era algo poético, bonito de se ver. Mesmo assim, ninguém os levava muito a sério em termos de voto.

Lá pela metade da década, Zezinho, já casado, dava duro em seu trabalho para ganhar o sustento da família, formada por ele, a mulher e dois filhos. Mesmo assim ainda encontrava energias para ir às reuniões do Partido dos Operários no final de semana, participar de atos, campanhas de filiação. Brigava pelo pão de cada dia, enquanto brigava por seus ideais. A mulher, que ao conhecê-lo achava aquilo tudo muito lindo, começava a ficar de saco cheio.

– Homem de deus, larga de mão esse PO que isso não está te dando nada, só te dá trabalho!

E a todas estas, Zezinho tentava argumentar. Em vão. A esposa argumentava que, se Zezinho dedicasse o tempo que era despendido com o partido em outra atividade, poderia estar “melhor de vida” como seus amigos que largaram dessa vidinha há alguns anos.

Mas Zezinho continuava militando. Toda semana ia à reunião com suas roupas surradas e seu Corcel velho caindo aos pedaços. Um dia, o capitalismo iria ruir e de seus escombros, um novo mundo iria nascer.

Um dia, o PO elegeu seu primeiro vereador na cidade. Zezinho até comprou uma cidra e estourou para comemorar. Mal sabia ele que isso só daria margem a novas exortações de sua esposa contra o envolvimento político:

– Viu? Tu estás te matando para os outros se darem bem! O Fulano se elegeu, e o que tu vai ganhar com isso?

Anos 1990. O Partido dos Operários cresceu na última eleição, e agora vai, pela primeira vez, disputar a Prefeitura da cidade com alguma chance – ainda que remota – de vitória. O partido ainda é o mais pé-rapado dentre as grandes legendas da cidade, não tinha militância paga (e nem teria como pagar), mas tinha um exército de militantes apaixonados.

Naquele ano, Zezinho pediu ao patrão para antecipar as férias: ao invés de tirá-las no verão para levar a família à praia (uma prainha modesta, na qual passavam todos os verões contando moedinhas até para dar picolé ás crianças, mas que mesmo assim era boa), resolveu tirá-las no último mês de campanha, para poder caminhar pela cidade e ajudar seu partido. Com isso, Zezinho realmente ganhou de vez o ódio da mulher e o desprezo das crianças, que ao saberem desta decisão passaram duas horas chorando em volta do pai.

A campanha eleitoral prosseguia, com os partidões tradicionais despejando fortunas em brindes, churrascadas, placas, pintura de muros, e o PO se virando como podia. O PO dependia da doação de dinheiro de seus militantes e até o material de campanha era VENDIDO ao invés de ser dado de graça, como ocorria nas demais siglas.

Lá pelo final da corrida, haviam placas do PO como nunca houve em nenhuma eleição anterior. As pesquisas davam ao PO um terceiro lugar que poderia converter-se em segundo nos dias finais da campanha, se a militância mantivesse o empenho. Alguns analistas políticos simpáticos ao partido sentiam, lá no fundo do peito, uma vertigem. Uma intuição, um vislumbre de que, numa grande “zebra”, num milagre, daqueles típicos de novela, os barbudinhos do PO poderiam até mesmo ganhar a eleição.

Estavam certos. Contrariando as pesquisas de poucos dias antes, o Partido dos Operários acabava de eleger seu primeiro prefeito na cidade.

O novo governo tinha um problema para resolver: o partido era ainda pequeno, concorrera sem aliados, e não tinha quadros (ou seja, pessoas) suficientes, com formação específica em cada área, para preencher as secretarias, direções e chefias de órgãos municipais. Iria, então, apostar na sua militância tradicional, nos fundadores do partido.

Zezinho, agora Secretário Municipal, passava a ganhar exatamente OITO vezes o seu antigo salário de empregado na empresa da qual pedira demissão assim que o resultado das eleições saiu. No novo cargo, começou a trabalhar mais do que nunca, mal aparecendo em casa para dormir e fazer algumas refeições.

Sua esposa, no entanto, não reclamava de nada. Numa virada psicológica de 180 graus, passara a achar ótima a paixão política do marido. Quando questionada sobre o assunto, parecia ter esquecido do passado e dizia sempre ter apoiado o fervor ideológico de Zezinho, “pois sabia que a luta não era em vão”. Na prática, Zezinho continuava indo à Prefeitura com seu Corcel velho, pois o poder não lhe subia à cabeça. Quem torrava seu gordo ordenado era a mulher, que tomara um “banho de loja” logo no primeiro mês do governo do PO. Em seguida, tirou os filhos do colégio estadual e matriculou-os no particular. Na vila onde moravam, passou a desfilar de madame. Poderosa. Passou a freqüentar o salão de beleza. Até faxineira contratou.

Os filhos passaram a ter cada um seu quarto: antes dormiam amontoados em um quartinho pequeno, mas com a nova renda, a família conseguiu fazer um puxadinho e aumentar o existente, dando à criançada confortos até então sequer sonhados.

De uma hora para a outra, a família via-se cercada de amigos. Todo mundo queria privar da intimidade da família mais importante da rua. Os parentes também começaram a aparecer. Zezinho antes era o pobretão da família, que chegava às festas de Natal com aquele carrinho caindo aos pedaços, chegando a contrastar com o padrão de classe média de seus irmãos, primos, cunhados. Agora, apesar de o carrinho continuar o mesmo, Zezinho era a celebridade de qualquer ocasião.

Toda essa mudança começou a ter efeitos sobre a mente de Zezinho.

Continuar com o mesmo visual era uma questão de princípios, de mostrar que o governo do PO estava ali para servir ao povo e não para enriquecer seus membros. Mas, de repente, esta filosofia de vida começou a parecer meio exagerada para Zezinho. Afinal, estava ficando mais velho e não poderia mesmo manter o mesmo visual de garoto rebelde para sempre. Um dia, foi a um bom salão, raspou a barba, fez um corte de cabelo mais sóbrio.

Todo dia, vestia-se para ir ao trabalho e sentia-se estranho ao olhar no espelho. Aquele rosto limpo, com ar digno, aquela cara de homem sério, de estadista… e vestido como se fosse um hippie… comprou umas roupinhas novas, uns três ternos para usar em ocasiões que exigem maior formalidade. Afinal, já percebera que seus colegas de partido e de governo apareciam bem vestidos nas fotos de inaugurações, e ele, sempre molambento. Não dava mais, realmente. Não era vaidade. Era exigência do cargo, ora bolas.

Outra providência a ser tomada era o tal do carro. O Corcelzinho valente de sempre, depois de sofrer com a buraqueira das vilas e da zona rural em tantas campanhas, estava entregando os pontos. Zezinho queria trocá-lo por um carro simples, e menos velho. A esposa saiu junto para dar uma olhada nas opções. A cada boa opção vista, a frase dela era a mesma:

– Mas se tu vais comprar esse carro aí, bota mais um pouquinho de dinheiro e compra um melhor, mais novo, que vai te incomodar menos!

Zezinho ia concordando, de loja em loja, de carro em carro. Acabaram comprando um carro zero, completo, bonito, parcelado em 60 vezes. Afinal, aquilo era um investimento para muitos anos, um carro que não iria incomodar tão cedo.

Último ano do mandato do prefeito. A cidade avançara muito, milhares de pessoas haviam saído da exclusão, das zonas de risco, o atendimento de saúde expandira-se muito. Em casa, as coisas também eram outras. Zezinho morava melhor, andava num carro novo, a família toda estava bem vestida, bem calçada.

O salário de Secretário Municipal, a esta altura, já não parecia tão gordo. Não que tivesse diminuído. Mas agora Zezinho tinha os filhos na escola particular, tinha as prestações das lojas, o carnê do carro. Acostumara-se a comer fora, a ir com os filhos a boas praias, a vestir-se melhor, a comer melhor. Pagava mensalidade da academia para a esposa, da escolinha de futebol para o menino, do balé da menina. A vida tornara-se mais cara.

O Partido dos Operários também mudara de vida ao longo dos últimos quatro anos. Foi se aproximando de alguns de seus antigos adversários, para garantir alguma governabilidade, passar projetos no Legislativo. O prefeito iria concorrer à reeleição apoiado por figuras que antes nem passariam perto de uma reunião do PO.

Zezinho sentia-se indignado com essa “venda dos ideais”, e pensou, por um momento, em romper com o PO e ingressar em algum partido mais à esquerda, mais radical. Estava pensando nisso quando chegou em casa… o filho o recebeu exultante, mostrando sua grande novidade:
– Pai! Pai! Olha só! Passei para a faixa laranja no caratê!

Zezinho parou e pensou por um segundo: saindo do partido, deixaria o governo. Deixando o governo, voltaria à vida de antes, ao magro salário de antes. Sendo um sujeito de princípios, a idéia não o assustava nem um pouco: não dava importância ao dinheiro e ao status. Estava pronto para repassar o carrão e o financiamento para outro, e com o dinheiro da entrada comprar novamente um carango velhinho para andar por aí. Não via problema algum em viver com menos, mas…

… logo algumas cenas começaram a passar em sua cabeça, como se fossem um filme. Imaginou o filho guardando a roupa de caratê….

– Agora não está dando mais para pagar a mensalidade, filhão, mas logo que a coisa melhorar tu voltas – diria Zezinho, sabendo, no fundo, que o menino provavelmente jamais voltaria a praticar seu esporte preferido. O filho, dali a um tempo, voltaria a usar roupas doadas pelos primos mais velhos. Imaginou o menino tendo que procurar emprego cedo, desistindo de seus sonhos…

Imaginou a filha indo às últimas aulas do balé, anunciando às amiguinhas da escola…. se despedindo das coleguinhas e indo para a escola estadual, com saudades das antigas companheiras de brincadeira. Imaginou especialmente a cena mais melancólica de todas: a menina brincando no pátio do colégio com as amigas, sabendo que aquelas seriam suas últimas brincadeiras com elas.

Imaginou a esposa, anos depois, ainda guardando com zelo as roupas compradas na época das vacas gordas, usando-as apenas para ir a ocasiões especiais… cada vez mais raras, aliás, pois os amigos vão sumindo, assim como os convites. A mulher envelhecida, amargurada, voltando às lides domésticas sem poder pagar uma faxineira.

Embora o dinheiro e o prestígio não lhe fizessem falta, Zezinho percebeu que destruiria a vida de todos os outros moradores de sua casa.

Resolveu não sair do partido. Ficou no governo. Engoliu, como aliados, alguns dos mais manjados representantes da escória política da cidade, dizendo para si mesmo que aquilo seria um mal necessário para um bem maior: a continuidade do projeto do PO.

Vitória nas urnas, mais um mandato para o Partido dos Operários. O novo governo passava então a promover um certo inchaço da máquina pública, “loteando” cargos para todos os aliados. Logo nos primeiros meses, Zezinho acabou deslocado de sua cadeira de Secretário porque o prefeito precisava acomodar ali um figurão, de outro partido, que iria concorrer a prefeito mas abriu mão para entrar na coligação.

Não que Zezinho, agora rebaixado a diretor de um departamento, passasse a ganhar MUITO MENOS com isso: logo começou a receber diárias de viagem e outras vantagens, que faziam com que ganhasse até mais, na média anual, do que antes.

Mas dali a um tempo, começou a perceber umas movimentações estranhas, umas contas que não fechavam… teve a plena convicção de estar detectando um caso de corrupção. Falou com o amigo prefeito, falou com o resto do pessoal, mas assim como ele próprio, ninguém sabia muito bem o que fazer. Se ESTOURASSEM a história toda, o governo todo seria rotulado como CORRUPTO e a imagem do PO, um partido que jamais estivera envolvido em nada escuso, seria maculada. Mas se não fizessem nada, estariam sendo coniventes.

A solução foi a seguinte: mexeram no secretariado, trocaram todos os envolvidos de lugar, para ver se a coisa parava por aí.

Pouco tempo depois, novas movimentações suspeitas começaram. Novo troca-troca na equipe. E nova “recaída”. Dali a um tempo, bateu um cansaço: o volume da roubalheira era pequeno, e deixar que ela seguisse era menos danoso ao andamento dos trabalhos do governo do que esse constante mexe-mexe nas Secretarias. Zezinho concordava com esta tese, aliás.

Dois anos depois da reeleição, e agora encontramos Zezinho já acostumado com o ambiente do governo, tolerante às pequenas safadezas dos aliados, acomodado em sua posição, e arrecadando além do salário, todos os adicionais que a lei lhe permitia. Nesse momento, mais uma vez o acaso histórico iria mexer com sua vida.

O Partido dos Operários, naquele ano, ganhou as eleições para o Governo do Estado. Zezinho apoiara um candidato a deputado que acabou eleito, mas não foi para a Assembleia Legislativa: na composição do novo governo estadual, acabou de Secretário Estadual de alguma coisa. Zezinho recebeu o convite para ir junto compor a equipe da pasta, e aceitou. De diretor na Prefeitura, a assessor numa Secretaria do Estado. Salário maior, mais prestígio, tudo.

Logo ao chegar ao novo cargo, Zezinho descobriu que ali as empresas prestadoras de serviços para o governo pagavam propinas para articular vitórias nas licitações. Recusou-se a recebê-las. Mas então ficou diante de uma nova sacanagem: impossibilitadas de comprar a decisão dos processos licitatórios, as empresas começaram a fazer pressão sobre o deputado, o governador… e Zezinho percebeu que a malandragem iria acontecer com ou sem sua ajuda. Começou a sentir-se o único trouxa no planeta dos espertos.

Um amigo, deputado estadual de outro partido que já governara antes, chegou e deu-lhe o argumento que faltava para fazer sua cabeça:

– Cara, todo mundo faz, e se tu não fazes, alguém vai fazer. Isso aí funciona assim há décadas, e se tu não dança conforme a música, eles te substituem por alguém que dance. Não dá para bancar o menino idealista e ingênuo numa hora dessas. Além disso, tu já fizeste tanto pela tua cidade, pelo teu estado… esse governo não vai durar para sempre, então tu tens que ter um dinheiro bom para investir, garantir a tua velhice.

Na semana seguinte, a turma da mala preta apareceu de novo na Secretaria, oferecendo um “presentinho” a Zezinho. Ele olhou para os espertalhões, e ainda não muito seguro do que estava prestes a fazer, disse-lhes:

– Eu andei pensando: de quê adianta ser santo numa terra de pecadores? Afinal, uma andorinha só não faz verão. Estou certo ou estou errado?

Apertaram as mãos. Zezinho abriu um sorriso. Todos na sala sorriram.